4. BRASIL 21.8.13

1. BOA DE VOTO, RUIM DE POLTICA
2. A CONTA DO CARTEL EM BRASLIA
3. CAMPANHAS INVESTIGADAS
4. AS RAMIFICAES FEDERAIS
5. TODOS OS HOMENS DO PROPINODUTO TUCANO

1. BOA DE VOTO, RUIM DE POLTICA
Em segundo lugar nas pesquisas para a Presidncia da Repblica, Marina Silva tem dificuldades para legalizar seu partido para 2014. Saiba por que e quais so suas alternativas eleitorais 
Josie Jeronimo

Com o legado de 20 milhes de votos e um folgado segundo lugar nas recentes pesquisas de inteno de voto, a ex-senadora Marina Silva patina no mesmo ponto que a tirou do Ministrio do Meio Ambiente h cinco anos: a poltica. Votos ela tem, mas no demonstra capacidade de articulao para transformar um eleitorado que provoca inveja tanto no tucano Acio Neves como no socialista Eduardo Campos em fora organizada para disputar a Presidncia em 2014. Em atividade desde fevereiro, quando reuniu militantes e seguidores em Braslia para lanar a Rede de Sustentabilidade, Marina at conseguiu coletar um bom nmero de assinaturas  mais de 800 mil  pelo Pas inteiro. A dificuldade  que, at agora, menos da metade das fichas de filiao foi certificada pela Justia Eleitoral. Pelos nmeros obtidos durante seis meses, s um milagre pode transformar o projeto da Rede numa legenda de verdade at o dia 30 de setembro, prazo mximo para a filiao.

O advogado do partido, Rogrio Paz Lima, reclama de problemas burocrticos no processamento das fichas em So Paulo, Estado que abriga o maior nmero de eleitores,  e no Distrito Federal  onde Marina venceu as eleies presidenciais. O advogado afirma que at mesmo fichas de fundadores da Rede, eleitores com endereo e histrico conhecidos, foram rejeitadas. Uma pessoa que tem tantas intenes de voto no pode ficar alijada do processo. Se Marina no disputar, no tem segundo turno.

A hiptese de Marina ficar fora da eleio de 2014 parece pouco provvel. Se a Rede no conseguir se legalizar a tempo, no faltaro legendas abertas a abrigar a candidata e seus seguidores. O presidente do  PEN (Partido Ecolgico Nacional), Adilson Barroso, afirma que no dia 10 de setembro far, pessoalmente, convite para ela se filiar  sigla verde. Ela tem que esgotar todas as foras para criar a Rede, mas vamos fazer o convite pessoalmente. O PEN  um partido novo e foi um partido novo que elegeu Fernando Collor, em 1989, diz. Para Barroso, a nica diferena entre a Rede e o PEN  o nome. As semelhanas, de fato, incluem as prprias contradies. Como a Rede, o PEN diz que sua principal causa  a sustentabilidade, bandeira que costuma atrair boa parte do eleitorado jovem. Ao mesmo tempo,  uma sigla conservadora no campo dos costumes  condena o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo  o que pode contribuir para afast-los. A cpula do PEN  tambm ligada  igreja evanglica, como Marina.

No momento em que a Rede parecia um partido fcil de ser construdo, passou a receber  migrao de tucanos, convencidos de que uma candidata com  uma tradio ambientalista teria disposio de terceirizar a administrao da economia em caso de vitria em 2014. Esse processo se reforou   depois que a educadora Maria Alice Setubal, uma das herdeiras do grupo Ita, anunciou que se tornaria uma das principais financiadoras de uma eventual candidatura presidencial de Marina Silva. Srgio Werlang, Ilan Goldfajn e outros economistas que ocupam ou ocuparam posio de destaque no Ita, onde fizeram parte de sua carreira, assumiram cargos importantes na equipe econmica do governo Fernando Henrique Cardoso. Um dos mais antigos aliados de Jos Serra, o deputado Walter Feldman, tambm deixou o PSDB para engajar-se na Rede, para onde transferiu uma mquina de afiliados. Outro deputado paulista, o tucano Ricardo Trpoli, com antigas preocupaes ambientais, j anunciou a inteno de trocar de camisa. No entanto, o que poderia ser uma virtude, a filiao de polticos ligados aos tucanos, pode se tornar um problema futuro. A aproximao excessiva com estrelas de um partido que ocupou a Presidncia da Repblica por duas vezes e que no momento se encontra no centro das denncias do propinoduto do Metr de So Paulo parece pouco conveniente para Marina, pelo risco de contaminar sua imagem de no poltica, que tanto sucesso faz entre os jovens, com o estigma de um partido velho  e tradicional .

Caso a criao da Rede se mostre invivel, Marina ainda ter de enfrentar um desafio que faz parte de sua carreira poltica  a dificuldade para adaptar-se a ambientes estranhos. Sua passagem-relmpago pelo Partido Verde deixou vrias sequelas. No apogeu da crise, o ex-deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), conhecido pelo esprito conciliador, tentou afinar as relaes entre Marina e o presidente do PV, deputado Jos Luiz Penna (PV-SP). Mas, depois que Marina deixou o partido sem avisar ningum, a relao entre ambos tornou-se irreconcilivel. Em vez de ajudar a Rede ou levar a candidatura de Marina para dentro de suas fileiras, os verdes comandados por Penna articulam candidatura prpria  Presidncia. A ideia  lanar Fernando Gabeira candidato. Justamente para tirar alguns votos de Marina.


2. A CONTA DO CARTEL EM BRASLIA
Auditorias dos tribunais de contas do df e da unio e investigaes da polcia federal e do ministrio pblico apontam Desvios de meio bilho de reais no metr da capital federal 
Claudio Dantas Sequeira

Diferentes auditorias realizadas por rgos de fiscalizao e controle, como o Tribunal de Contas do Distrito Federal, da Unio e Controladoria-Geral da Unio (CGU), obtidas por ISTO, revelam pela primeira vez a conta do rombo na capital federal com o esquema do metr. Segundo os documentos, reforados por relatos de fontes da Polcia Federal e do Ministrio Pblico, os desvios podem chegar a meio bilho de reais. O valor  superior ao das fraudes de So Paulo, onde o sistema de trens subterrneos  com 65,3 km de rede, 58 estaes e 150 trens  tem mais que o dobro do tamanho do metr de Braslia, que, apesar da extenso de 42,4 km, opera apenas com 24 estaes e 32 trens. Para chegar ao valor da soma desviada pelo esquema do metr do DF, os investigadores levaram em conta que o preo praticado pelo consrcio Brasmetr, liderado pela francesa Alstom, embutia as maiores margens de lucro da empresa no Pas, superiores a 50%, e pagamento de propina de at 10%, margem superior  recebida por agentes pblicos em So Paulo.

De acordo com tcnicos do Ncleo de Fiscalizao de Obras e Servios de Engenharia do TCDF, entre 1994 e 2009, o valor contratado corrigido pela inflao seria de R$ 5,089 bilhes, dos quais R$ 4,77 bilhes haviam sido executados at ento. S as obras do trecho Taguatinga-Ceilndia apresentaram indcios de superfaturamento da ordem de R$ 11,7 milhes, revelou o tribunal. As obras das estaes 102 Sul, 112 Sul e Guar, segundo os tcnicos, apresentaram evidncias de superfaturamento da ordem de R$ 14,2 milhes. A mesma auditoria encontrou indcios de superfaturamento tambm nos contratos de manuteno e apoio  operao do Metr, de R$ 60,4 milhes, valor que atualizado totaliza R$ 85,4 milhes.

O histrico de irregularidades inclui aditamentos contratuais superiores a 25%, compras sem licitao, subcontrataes e terceirizao de mo de obra. O Ministrio Pblico apura ainda por que a Alstom usou ao menos cinco CNPJs diferentes para receber mais de R$ 455 milhes em recursos do contrato do Metr, entre 2001 e 2010, perodo que compreende os governos Joaquim Roriz e Jos Roberto Arruda. Os procuradores tambm avaliam as semelhanas entre o esquema tucano em SP e no DF. Lembram que Arruda, antes de chegar ao antigo PFL, rebatizado DEM, integrou as fileiras tucanas. O consrcio Brasmetr, alm da Alstom, era integrado pelas construtoras Camargo Corra, Andrade Gutierrez, Serveng e Odebrecht  as duas primeiras tambm esto no Metr paulista, assim como a Inepar/Iesa. 

AUDITORIA - Segundo o Tribunal de Contas do DF, apenas no trecho Taguatinga-Ceilndia  e nas estaes da 102 Sul, 112 Sul e Guar, as obras no metr de Braslia foram superfaturadas em R$ 25,9 milhes

Entre as empresas parceiras, chama a ateno dos procuradores a consultoria TCBR/Altran, autora do projeto executivo do metr. Entre 2000 e 2010, a empresa embolsou R$ 80 milhes em contratos com o governo do Distrito Federal  boa parte relativa ao metr. A mesma empresa foi denunciada pelo Ministrio Pblico por fraude na licitao do projeto bsico do Veculo Leve Sobre Trilhos (VLT), de R$ 1,56 bilho, que integrava o pacote de obras para a Copa de 2014. O MP descobriu que as nicas concorrentes Dalcon e Altran/TCBR apresentaram propostas tcnicas e comerciais com trechos idnticos, indicando terem todas partido de uma mesma fonte.

A fonte, a que os procuradores se referiam, chama-se Jos Gaspar de Souza, engenheiro que assessorou, em 1991, a dupla Arruda-Roriz na elaborao do projeto do Metr-DF e na obteno de financiamento internacional para a obra. Durante os dois governos, Gaspar nunca se desligou do Metr. Foi coordenador-geral das atividades de implantao do sistema, acumulando a diretoria de operao e manuteno, inclusive no governo de Cristovam Buarque (ento no PT), at 1997. Em seguida, foi trabalhar como coordenador-geral de programas estratgicos do Denatran, justamente na gesto de Jurandir Fernandes, atual secretrio de Transportes do governo Alckmin. Entre 2002 e 2006, ele atuou como consultor da TCBR na elaborao do Metr Leve de Curitiba, na gesto de Beto Richa (PSDB), e na montagem do programa de transporte urbano de Palmas, ento governada por Nilmar Ruiz (do velho PFL).

Arruda chamou Gaspar para a coordenao de sua campanha e, aps sua posse, em 2007, nomeou-o presidente do Metr. O engenheiro acabou exonerado quando veio a pblico a fraude na licitao para beneficiar a TCBR. Criada em 1988 pelo tambm engenheiro Renato Grillo Ely, ligado a Arruda e Gaspar, a TCBR foi adquirida pelo grupo francs Altran em 2000, mas Ely continuou dirigindo a empresa com a ajuda de seus scios, entre eles Antonio Augusto Huebel Rebello, que foi secretrio de Cristovam Buarque. O Metr tambm abrigou em seu conselho outro preposto de Arruda, o assessor Antnio Bento, preso pela Polcia Federal ao tentar subornar uma testemunha do inqurito 650, fruto da Operao Caixa de Pandora, que investigou o mensalo do DEM no DF. Pelo visto, o buraco do Metr na capital  muito mais fundo do que se imaginava.


3. CAMPANHAS INVESTIGADAS
Ministrio Pblico e PF fazem rastreamento e encontram indcios de que parte do dinheiro desviado no escndalo do metr pode ter alimentado campanhas do PSDB, inclusive a de FHC em 1998 
Mrio Simas Filho

O Ministrio Pblico Federal e a PF comearam na ltima semana uma sigilosa investigao que, entre os procuradores, vem sendo chamada de siga o dinheiro. Trata-se de um nome que traduz literalmente o objetivo da misso, que consiste em fazer um minucioso cruzamento de dados j coletados em investigaes feitas nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil, seja pela PF, pelo Ministrio Pblico Federal e pelo MP de So Paulo, envolvendo os contratos feitos pelas empresas Alstom e Siemens com o governo de So Paulo. Temos fortes indcios de que parte do superfaturamento de muitos contratos serviu para abastecer campanhas do PSDB desde 1998, especialmente as de Fernando Henrique Cardoso e Mrio Covas, disse  ISTO, na manh da quinta-feira 15, um dos procuradores que acompanham o caso. Mas acreditamos que com os novos dados que receberemos da Sua e da Alemanha chegaremos tambm s campanhas mais recentes. Sobre a campanha de 1998, os procuradores asseguram j ter identificado cerca de R$ 4,1 milhes que teriam sado de contas mantidas em parasos fiscais por laranjas e consultores contratados pela Alstom para trafegar o superfaturamento de obras do Metr, da CPTM e da Eletropaulo. Agora que sabemos os nomes de algumas dessas empresas de fachada ser possvel fazer o rastreamento e chegarmos aos nomes de quem participou das operaes, diz o procurador.

REGISTROS - Em depoimento, lobista admite que recebeu no Brasil recursos de empresas ligadas a Alstom instaladas em parasos fiscais

Dos cerca de R$ 4,1 milhes, os procuradores avaliam que R$ 3 milhes chegaram aos cofres do PSDB atravs de um tucano bicudo, j indiciado pela Polcia Federal. Trata-se do atual vereador Andra Matarazzo, ex-ministro de FHC, secretrio de Covas e Serra. Em 2008, quando explodiu o esquema de propinas da Alstom na Europa, documentos apreendidos por promotores da Frana mostravam que a empresa pagou comisses para obter negcios no governo de So Paulo. De acordo com memorandos apreendidos pela justia francesa, a Alstom pagava propinas equivalentes a 7,5% do valor dos contratos que eram divididos entre as finanas do PSDB, o Tribunal de Contas do Estado e a Secretaria de Energia. Em 1998, poca em que teriam sido assinados os contratos superfaturados, Matarazzo acumulava o comando da Secretaria de Energia e a presidncia da Cesp, as principais clientes do grupo Alstom no Estado. Antes disso, em novembro de 2000, tornou-se pblica uma planilha que teria listado a arrecadao de campanha no declarada pelo Diretrio Nacional do PSDB. Segundo essa lista, Matarazzo seria o responsvel por um repasse de R$ 3 milhes provenientes da Alstom. Ele nega. Diz que no fez arrecadao irregular de recursos e que apenas reuniu alguns empresrios para obter ajuda financeira  campanha, de forma regular e declarada. Sobre o indiciamento, afirma que j recorreu judicialmente.

REGISTROS - Em depoimento, lobista admite que recebeu no Brasil recursos de empresas ligadas a Alstom instaladas em parasos fiscais

Outro R$ 1,1 milho que os procuradores j tm rastreado teria vindo de contas mantidas por empresas instaladas em parasos fiscais. Uma dessas contas se chama Orange e o detalhamento do esquema de recebimento do dinheiro vindo da Alstom foi revelado ao Ministrio Pblico paulista por um ex-lobista da empresa, hoje aposentado, Romeu Pinto Jnior. No depoimento a que ISTO teve acesso, ele admite que recebeu no Brasil US$ 207,6 mil do Union Bancaire Prive de Zurique, em outubro de 1998, e outros US$ 298,8 mil em dezembro do mesmo. Agora, os procuradores esto seguindo outras duas remessas feitas a Pinto Jnior pelo Bank Audi de Luxemburgo, entre dezembro de 2001 e fevereiro de 2002. A primeira soma US$ 245 mil e a segunda, US$ 255 mil. Todo esse dinheiro, segundo o procurador, passou por uma empresa no Uruguai chamada MCA. Alm dela, a equipe est investigando contas em nome da Gateway e da Larey, ambas operadas por Arthur Teixeira, um dos lobistas delatados pela Siemens ao Cade, e identificadas como pontes para o pagamento de propinas.

Entre os documentos que o Ministrio Pblico Federal recebeu da Sua e da Alemanha esto dados que podem comprometer David Zilberstein. Segundo o procurador ouvido por ISTO, ele teria sido um dos pioneiros a estimular a formao de cartis, principalmente na rea de energia. S depois de rastrear todos os dados bancrios obtidos nas investigaes feitas fora do Pas  que os procuradores pretendem comear a tomar depoimentos. Os responsveis pelas investigaes avaliam que a parte mais difcil do rastreamento ser feita a partir do prximo ms, quando pretendem fazer um paralelo dos dados j levantados com o que poder vir a ser fornecido por empresas que trabalharam nas campanhas eleitorais.  


4. AS RAMIFICAES FEDERAIS
Esquema montado por empresas de transporte sobre trilhos alcanou diversos estados do Pas e envolveu grandes obras tocadas pelo governo federal. Ministrio Pblico diz que cartel  generalizado 
Izabelle Torres

O esquema clandestino montado por empresas da rea de transporte sobre trilhos est longe de ser uma exclusividade paulista. Investigaes e denncias pelo pas inteiro mostram que o cartel possui tentculos em diferentes Estados e comanda algumas das maiores e mais onerosas obras pblicas. O governo federal  pagou entre 2004 e 2013 mais de R$ 460 milhes para as empresas Siemens, Alstom e CAF, trs das 19 empresas suspeitas de envolvimento no propinoduto paulista. Na semana passada, a procuradora da Repblica em So Paulo, Karen Louise Jeanette Kahn, pediu acesso s investigaes em andamento no Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade), alegando que h suspeitas de que o esquema chegou a grande parte do Pas por meio de licitaes federais, especialmente na Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). Pode haver um cartel generalizado e espalhado em Estados e municpios.  preciso investigar, disse ela.

As suspeitas de irregularidades envolvendo empresas do escndalo do Metr paulista em obras federais realizadas nos Estados sempre chamaram a ateno dos rgos de fiscalizao, mas os processos nunca foram concludos. Levantamento realizado por ISTO mostra que h uma relao direta entre obras tocadas por essas empresas e a abertura de investigaes, como se elas fossem personagens inevitveis desse tipo de investimento. Na Bahia, o carro-chefe da campanha do petista Jaques Wagner ao governo foi a concluso das obras do metr da capital, comandadas por um consrcio encabeado pela Siemens. No ano passado, o mesmo discurso foi repetido pelo atual prefeito de Salvador, Antonio Carlos Magalhes Neto (DEM). O metr de Salvador  uma obra necessria  populao e tem grande apelo eleitoral, mas segue levantando suspeitas de superfaturamento. H dois anos, o Ministrio Pblico Estadual apura o destino de mais de R$ 400 milhes que teriam sido desviados desde 1999. Em 13 anos de investimento, o metr soteropolitano  um pequeno fantasma do que deveria ser e, no total, j consumiu mais de R$ 1 bilho. Nas mos de um consrcio igualmente formado pela Siemens est tambm a construo da Linha Sul do metr de Fortaleza, outro projeto gigante na mira do Cade. A obra da Linha Sul, com 18 estaes, custou R$ 1,5 bilho. Desse total, o TCU estima que pelo menos R$ 150 milhes foram superfaturados e parte desse dinheiro teria sido usada para pagar facilitadores do contrato. As investigaes ainda no foram concludas.

Os empreendimentos encabeados por empresas investigadas por formao de cartel em obras to milionrias quanto suspeitas incluem tambm o metr de Porto Alegre. Na capital gacha, a  Alstom detm 93% do consrcio vencedor, em parceria com a espanhola CAF. Apesar de ainda estar em fase inicial, a obra  alvo de pelo menos trs denncias apresentadas ao Ministrio Pblico. Uma delas, de fonte annima, muito comum em casos dessa natureza, diz que a prefeitura suspendeu uma licitao para dar tempo ao consrcio encabeado pela Alstom de combinar os preos para que ela fosse a nica a se apresentar na licitao. As outras duas suspeitas recaem novamente sobre o superfaturamento.  que a obra est inicialmente orada em R$ 243,7 milhes. Isso quer dizer que cada trem licitado custar quase R$ 17 milhes: preo muito superior  mdia de R$ 13 milhes encontrada pelos rgos de fiscalizao.

 A Alstom tambm est presente na polmica  transposio do rio So Francisco. A mais cara obra do governo federal foi calculada inicialmente em cerca de R$ 4,5 bilhes. A previso de gastos j passa de R$ 8,2 bilhes, mas no h nem sequer previso para a concluso das obras. Pelo contrrio, parte do que foi feito ter de ser reformado. A empresa francesa forneceu quatro bombas para a transposio por meio de um contrato assinado em 2007. Os custos dessas bombas so analisados pelo Tribunal de Contas da Unio desde 2008, mas o processo nunca foi concludo. O Ministrio da Integrao abriu cinco processos de investigao para apurar sobrepreos nas obras da transposio. Por enquanto, os tcnicos j encontraram cobranas indevidas por parte das empresas e superfaturamento em alguns dos trechos. Irritada com o rumo das investigaes, a Alstom pressionou o governo. Atribui-se a seus movimentos a demisso de sete tcnicos terceirizados, responsveis por fiscalizar os contratos.

Os tentculos das empresas acusadas de comandar um cartel para ganhar obras pblicas chegaram tambm ao setor eltrico. Em Itaipu, um processo da Justia Federal apura se funcionrios da usina participaram de uma negociao com representantes da Siemens e da Alstom para liberar quase R$ 200 milhes que as empresas cobravam na Justia desde 2002. Em Santa Catarina, as suspeitas giram em torno da Usina Hidreltrica de It. O contrato da obra foi fechado em 1999 e orado em R$ 700 milhes. A suspeita, alimentada por um processo das autoridades suas,   de que, para ganhar a licitao, a Alstom pagou quase R$ 5 milhes de propina. Como se v, a abrangncia dos contratos das empresas do cartel  uma preocupao para o Planalto e tambm para polticos dos mais variados partidos.

 Os processos que a Siemens e a Alstom enfrentam no mundo inteiro demonstram que os problemas brasileiros no so um caso isolado. Investimentos em infraestrutura envolvem despesas de vulto e  tecnologias de ponta que poucos  tm competncia para oferecer. So empresas de carter monopolista, que precisam de escalas gigantescas para se sustentar. Nenhum Pas, isoladamente, consegue ter mercado para estimular a concorrncia interna e por isso o  mercado global funciona como uma arena onde os campees nacionais disputam a clientela de outras naes. Nessa guerra cada vez mais difcil, a maioria das empresas pratica, fora de casa, um jogo sujo que no admite em seu prprio Pas. 


5. TODOS OS HOMENS DO PROPINODUTO TUCANO
Quem so e como operam as autoridades ligadas aos tucanos investigadas pela participao no esquema que trafegou por governos do PSDB em So Paulo 
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Srgio Pardellas 

Na ltima semana, as investigaes do Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade) e do Ministrio Pblico mostraram a abrangncia nacional do cartel na rea de transporte sobre trilhos. A tramoia, concluram as apuraes, reproduziu em diversas regies do Pas a sistemtica observada em So Paulo, de conluio nas licitaes, combinao de preos superfaturados e subcontratao de empresas derrotadas. As fraudes que atravessaram inclumes 20 anos de governos do PSDB em So Paulo carregam, no entanto, peculiaridades que as diferem substancialmente das demais que esto sendo investigadas pelas autoridades. O esquema paulista distingue-se pelo pioneirismo (comeou a funcionar em 1998, em meio ao governo do tucano Mrio Covas), durao, tamanho e valores envolvidos  quase meio bilho de reais drenados durante as administraes tucanas. Porm, ainda mais importante, o escndalo do Metr em So Paulo j tem identificada a participao de agentes pblicos ligados ao partido instalado no poder. Em troca do aval para deixar as falcatruas correrem soltas e multiplicarem os lucros do cartel, quadros importantes do PSDB levaram propina e azeitaram um propinoduto que desviou recursos pblicos para alimentar campanhas eleitorais.

Ao contrrio do que afirmaram o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador Jos Serra na quinta-feira 15, servidores de primeiro e segundo escales da administrao paulista envolvidos no escndalo so ligados aos principais lderes tucanos no Estado. Isso j est claro nas investigaes. Usando a velha e surrada ttica poltica de despiste, Serra e FHC afirmaram que o esquema no contou com a participao de servidores do Estado nem beneficiou governos comandados pelo PSDB. No  o que mostram as apuraes do Ministrio Pblico e do Cade. Pelo menos cinco autoridades envolvidas na engrenagem criminosa, hoje sob investigao por terem firmado contratos irregulares ou intermediado o recebimento de suborno, atuaram sob o comando de dois homens de confiana de Jos Serra e do governador de So Paulo, Geraldo Alckmin: seus secretrios de Transportes Metropolitanos. Jos Luiz Portella, secretrio de Serra, e Jurandir Fernandes, secretrio de Alckmin, chefiaram de perto e coordenaram as atividades dos altos executivos enrolados na investigao. O grupo  composto pelos tcnicos Dcio Tambelli, ex-diretor de operao do Metr e atualmente coordenador da Comisso de Monitoramento das Concesses e Permisses da Secretaria de Transportes Metropolitanos, Jos Luiz Lavorente, diretor de Operao e Manuteno da CPTM, Ademir Venncio, ex- diretor de engenharia da estatal de trens, e os ex-presidentes do metr e da CPTM, Jos Jorge Fagali e Srgio Avelleda.

Segundo documentos em poder do CADE e Ministrio Pblico, estes cinco personagens, afamados como bons quadros tucanos, se valeram de seus cargos nas estatais paulistas para atender, ao mesmo tempo, aos interesses das empresas do cartel na rea de transporte sobre trilhos e s convenincias polticas de seus chefes. Em troca de benefcios para si ou para os governos tucanos, forneciam informaes privilegiadas, direcionavam licitaes ou faziam vista grossa para prejuzos milionrios ao errio paulista em contratos superfaturados firmados pelo metr. As investigaes mostram que estes tcnicos do Metr e da CPTM transitaram pelos governos de Serra e Alckmin operando em maior ou menor grau, mas sempre a favor do esquema.

Um dos destaques do quinteto  Jos Luiz Lavorente, diretor de Operao e Manuteno da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Em um documento analisado pelo CADE, datado de 2008, Lavorente  descrito como o encarregado de receber em mos a propina das empresas do cartel e distribu-las aos polticos do PSDB e partidos aliados. O diretor da CPTM  pessoa da estrita confiana de Alckmin. Foi o governador de So Paulo que o promoveu ao cargo de direo na estatal de trens, em 2003. Durante o governo Serra (2007-2008), Lavorente deixou a CPTM, mas permaneceu em cargos de comando da estrutura administrativa do governo como cota de Alckmin. Com o regresso de Alckmin ao Palcio dos Bandeirantes, em 2011, Lavorente reassume o posto de direo na CPTM. Alm de ser apontado como o distribuidor da propina aos polticos, Lavorente responde uma ao movida pelo Ministrio Pblico de So Paulo (MP-SP) que aponta superfaturamento e desrespeito  lei de licitaes. O processo refere-se a um acordo fechado por meio de um aditivo, em 2005, que possibilitou a compra de 12 trens a mais do que os 30 licitados, em 1995 e s seria valido at 2000.

O ex-diretor de Operao do Metr e atualmente coordenador da Comisso de Monitoramento das Concesses e Permisses da secretaria de Transportes Metropolitanos, Dcio Tambelli,  outro personagem bastante ativo no esquema paulista. Segundo depoimentos feitos por ex-funcionrios da Siemens ao Ministrio Pblico de So Paulo, Tambelli est na lista dos servidores que receberam propina das companhias que firmaram contratos superfaturados com o metr e a CPTM. Tambelli  muito prximo do secretrio de Transportes, Jurandir Fernandes. Foi Fernandes que o alou ao cargo que ocupa atualmente na administrao tucana. Cabe a Tambelli, apesar de estar na mira das investigaes, acompanhar e fiscalizar o andamento da linha quatro do metr paulista, a primeira obra do setor realizada em formato de parceria pblico-privada. Emails obtidos por ISTO mostram que, desde 2006, Tambelli j agia para defender e intermediar os interesses das empresas integrantes do cartel. Na correspondncia eletrnica, em que Tambelli  mencionado, executivos da Siemens narram os acertos entre as companhias do cartel no Distrito Federal e sugerem que o acordo l na capital seria atrelado  subcontratao da Siemens nos lotes 1+2 da linha 4 em So Paulo. O Ramos (funcionrio do conglomerado francs Alstom) andou dizendo ao Dcio Tambelli do metr SP, que no pode mais subcontratar a Siemens depois do caso Taulois/Ben-hur (episdio em que a Siemens tirou tcnicos da Alstom para se beneficiar na pontuao tcnica e vencer a licitao de manuteno do metr de Braslia), dizia o e-mail trocado entre os funcionrios da Siemens.

Outro homem do propinoduto tucano que goza da confiana de Jurandir Fernandes e de Alckmin  Srgio Avelleda. Ele foi nomeado presidente do Metr em 2011, mas seu mandato durou menos de um ano e meio. Avelleda foi afastado aps a Justia atender acusao do Ministrio Pblico de improbidade administrativa. Ele era suspeito de colaborar em uma fraude na concorrncia da Linha 5 do Metr, ao no suspender os contratos e aditamentos da concorrncia suspeita de formao de cartel. Sua permanncia no cargo, neste atual momento, apenas iria demonstrar a conivncia do Poder Judicirio com as ilegalidades praticadas por administradores que no respeitam as leis, a moral e os demais princpios que devem nortear a atuao de todo agente pblico, decretou a juza Simone Gomes Casorretti, ao determinar sua demisso. Aps a sada, Avelleda obteve uma liminar para ser reconduzido ao cargo e pediu demisso. Hoje  consultor na rea de transporte sobre trilhos e presta servios para empresas interessadas em fazer negcios com o governo estadual.

De acordo com as investigaes, quem tambm ocupou papel estratgico no esquema foi Ademir Venncio, ex-diretor da CPTM. Enquanto trabalhou na estatal, Venncio cultivou o hbito de se reunir em casas noturnas de So Paulo com os executivos das companhias do cartel para fornecer informaes internas e acertar como elas iriam participar de contratos com as empresas pblicas. Ao deixar a CPTM, em meados dos anos 2000, ele resolveu investir na carreira de empresrio no setor de engenharia. Mas nunca se afastou muito dos governos do PSDB de So Paulo. A Focco Engenharia, uma das empresas em que Venncio mantm participao, amealhou, em consrcios, pelo menos 17 consultorias oradas em R$ 131 milhes com as estatais paulistas para fiscalizar parcerias pblico-privadas e andamento de contratos do governo de Geraldo Alckmin. Outra companhia em nome de Venncio que tambm mantm contratos com o governo de So Paulo, o Consrcio Supervisor EPBF, causa estranheza aos investigadores por possuir capital social de apenas R$ 0,01. O Ministrio Pblico suspeita que a contratao das empresas de Venncio pela administrao tucana seja apenas uma cortina de fumaa para garantir vista grossa na execuo dos servios prestados por empresas do cartel. As mesmas que Venncio mantinha relao quando era servidor pblico.

A importncia da secretaria Transportes Metropolitanos e suas estatais subordinadas, Metr e CPTM, para o esquema fica evidente quando se observa a lgica das mudanas de suas diretorias nas transies entre as gestes de Serra e Alckmin. Ao assumir o governo em 2007, Jos Serra fez questo de remover os aliados de Alckmin e colocar pessoas ligadas ao seu grupo poltico. Um movimento que seria revertido com a volta de Alckmin em 2011. Apesar dessa dana de cadeiras, todos os integrantes do esquema permaneceram em postos importantes das duas administraes tucanas. Quem sempre operou essas movimentaes e trocas de cargos, de modo a assegurar a continuidade do funcionamento do cartel, foram os secretrios de Transportes Metropolitanos de Serra e Alckmin, Jos Luiz Portella e Jurandir Fernandes.

Homem forte do governador Geraldo Alckmin, Fernandes comeou sua trajetria poltica no PT de Campinas, interior de So Paulo. Chegou a ocupar o cargo de secretrio municipal dos Transportes na gesto petista, mas acabou expulso do partido em 1993 e ingressou no PSDB. Por transitar com desenvoltura pelo governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Jurandir foi guindado a diretor do Denatran (Departamento Nacional de Trnsito) em 2000. No ano seguinte, aproximou-se do ento governador Alckmin, quando assumiu pela primeira vez o cargo de secretrio estadual de Transportes Metropolitanos. Neste primeiro perodo  frente da pasta, tanto a CPTM quanto o Metr firmaram contratos superfaturados com empresas do cartel. Quando Serra assume o governo paulista em 2007, Jurandir  transferido para a presidncia da Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano), responsvel pela formulao de polticas pblicas para a regio metropolitana de So Paulo. Com o retorno de Alckmin ao governo estadual em 2011, Jurandir Fernandes tambm volta ao comando da disputada pasta. Nos ltimos dias, o secretrio de Transportes tem se esforado para se desvincular dos personagens investigados no esquema do propinoduto. Fotos obtidas por ISTO, no entanto, mostram Jurandir Fernandes em companhia de Lavorente e de lobistas do cartel durante encontro nas instalaes da MGE Transporte em Hortolndia, interior de So Paulo. Um dos fotografados com Fernandes  Arthur Teixeira que, segundo a investigao, integra o esquema de lavagem do dinheiro da propina. Teixeira, que acompanhou a solenidade do lado do secretrio Fernandes, nunca produziu um parafuso de trem, mas  o responsvel pela abertura de offshores no Uruguai usadas pelo esquema. Outro companheiro de solenidades flagrado com Fernandes  Ronaldo Moriyama ex-diretor da MGE, empresa que servia de intermediria para o pagamento das comisses s autoridades e polticos. Moriyama  conhecido no mercado ferrovirio por sua agressividade ao subornar diretores do Metr e CPTM, segundo depoimentos obtidos pelo Ministrio Pblico.

No governo Serra, quem exercia papel poltico idntico ao de Jurandir Fernandes no governo Alckmin era o ento secretrio de Transportes Metropolitanos, Jos Luiz Portella. Serrista de primeira hora, ele ingressou na vida pblica como secretrio na gesto Mrio Covas. Portelinha, como  conhecido dentro do partido,  citado em uma srie de e-mails trocados por executivos da Siemens. Num deles, Portella, assim como Serra, sugeriram ao conglomerado alemo Siemens que se associasse com a espanhola CAF em uma licitao para compra de 40 novos trens. O encontro teria ocorrido em um congresso internacional sobre ferrovias realizado, em 2008, na cidade de Amsterd, capital da Holanda. Os dois temiam que eventuais disputas judiciais entre as companhias atrasassem o cronograma do projeto. Apesar de o negcio no ter se concretizado nestas condies, chama ateno que o secretrio sugerisse uma prtica que resulta, na maioria das vezes, em prejuzos aos cofres pblicos e que j ocorria em outros contratos vencidos pelas empresas do cartel. Quem assinava os contratos do Metr durante a gesto de Portella era Jos Jorge Fagali, ento presidente do rgo. Ex-gerente de controle da estatal, ele teve de conviver com questionamentos sobre o fato de o seu irmo ser acusado de ter recebido cerca de US$ 10 milhes da empresa francesa Alstom. A companhia, hoje envolvida nas investigaes do cartel,  uma das principais vencedoras de contratos e licitaes da empresa pblica.

